O Governo Não Aprendeu a Principal Lição do Racionamento de Energia

Arquivado em: sustentabilidade | Tags:, , , , , , , — Luiz Carlos Pôrto @ 10:09

A Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), empresa pública federal vinculada ao Ministério das Minas e Energia, divulgou recentemente os dados do consumo de energia elétrica no Brasil entre 1995 e 2011.

A planilha com os dados pode ser copiada em:

 www.silvaporto.com.br/admin/downloads/CONSUMO_ENERGIA_1995_2011.PDF

Dos dados percebe-se claramente como o Governo Federal não aprendeu a principal lição deixada pelo racionamento de energia ocorrido na década passada. 

Entre julho de 2001 e fevereiro de 2002 o Brasil teve que reduzir o consumo de energia elétrica para evitar apagões. Devido à falta de planejamento e ao baixo nível de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas o consumo se aproximou perigosamente da oferta de energia. 

Com o apoio técnico do professor e consultor Vicente Falconi foi criado um programa que previa metas de consumo de energia para os consumidores (empresas, residências e estabelecimentos comerciais) das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Quem ultrapassasse as metas pagaria multa. Quem as cumprisse ganharia bônus em dinheiro. 

Os resultados foram impressionantes. Os consumidores residenciais aproveitaram a obrigação de ter de reduzir o consumo para incorporar ações de economia e eficiência energética. As empresas adquiriram equipamentos mais eficientes. Foi um período de agenda cheia para as consultorias de eficiência energética, chamadas de Esco (energy saving companies). 

Como resultado, o consumo de energia em 2001 foi 7,9% menor do que em 2000. As indústrias reduziram o consumo em 6,7% e as residências em 11,9%.   Vejam o gráfico abaixo, da dissertação de Mestrado de Cesar Bardelin, na Escola Politécnica da USP.

 

 

 

O mais impressionante é que mesmo após o término do racionamento a sociedade percebeu a força da eficiência energética. Somente em 2003 o consumo de energia no país voltou ao nível de 2000. No consumo residencial isso só aconteceu em 2005. Lembro até de uma história hilária. Como as concessionárias de energia perderam receita, foi cogitado distribuir pipoca de microondas à população como uma forma de elevar o consumo de energia. 

A principal lição do racionamento não foi aprendida. O Governo Federal perdeu uma chance ímpar de implantar um sólido programa de eficiência energética no Brasil, aproveitando a mobilização nacional do racionamento de energia. Como sempre, o governo agiu apenas no lado da oferta. Muitos investimentos em novas usinas foram feitos e não tivemos mais riscos de racionamento. Todavia, do lado da demanda nada foi feito. 

Imagine o quanto de energia poderia ser economizada se o governo adotasse medidas como: 

a) Financiamento subsidiado para uso de energia solar (aquecimento de água do chuveiro) e eólica residencial; 

b) Política fiscal a favor da eficiência, ou seja, maiores impostos para produtos de maior consumo de energia; 

c) Programa de substituição de motores e equipamentos antigos em empresas; 

d) Aprofundamento do programa de rotulagem de produtos de baixo consumo de energia; 

e) Desenvolvimento de programa para capacitação de engenheiros e arquitetos com o objetivo de difundir construções de baixo consumo de energia. 

Muitos dizem que o aumento do consumo de energia está inexoravelmente ligado ao crescimento do PIB, portanto, para o país crescer economicamente é necessário aumento do consumo. Isso é pensar com a cabeça no passado. Não é preciso ser especialista para verificar os imensos desperdícios de energia que existem em nosso meio. Muitos países já provaram que é possível crescer reduzindo o consumo de energia. 

Os números não mentem. Uma redução de apenas 5% no consumo de residências e indústrias no país equivale a 16% da energia produzida por Itaipu. Se a eficiência energética fosse prioridade do governo não precisaríamos construir usinas hidrelétricas na Amazônia.

 

Comments (2)

2 Comentários »

  1. Está mais do que comprovado que os nossos governantes estão mais preocupados em fazer grandes obras (porque dá dinheiro e atrai a atenção dos eleitores). Se eles fizessem “o dever de casa”, não precisaria construir mais hidrelétricas. Fariam campanhas periódicas à nivel nacional para que os consumidores fizessem racionamento e substituissem seus aparelhos por modelos mais eficientes. Atenciosamente, Érika.

    Comment by Érika Alves Tavares Marques — 29/03/2012 @ 12:26

  2. Concordo totalmente Érika. Por exemplo, por que não se faz a repotenciação das usinas hidrelétricas antigas, o que elevaria substancialmente a geração de energia? A resposta está em outra pergunta. Quem tem mais inflluência sobre os políticos, as grandes empreiteiras ou os fabricantes de equipamentos?

    Luiz Pôrto

    Comment by Luiz Carlos Pôrto — 29/03/2012 @ 13:17

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