
Muitas empresas investem em meio ambiente, porém ainda na abordagem tradicional, focada na ecoeficiência. Já tratamos desse tema aqui no blog várias vezes.
Uma das bases do modelo de gestão ambiental avançada, baseado no conceito de sustentabilidade, é buscar a eliminação do uso de substâncias tóxicas. Obviamente, essa ação passa por uma detalhada e criteriosa avaliação de fornecedores. Vejam o que ocorreu agora com o McDonald’s.
O McDonald’s anunciou que fará o recall de 12 milhões de copos temáticos do filme Shrek nos EUA devido à presença de cádmio na pintura. Como uma empresa que afirma ter uma gestão ambiental tão eficaz pode cometer um equívoco desses? É um péssimo exemplo, mas mostra o quanto a abordagem tradicional é falha na obtenção de um elevado desempenho ambiental nas empresas.
Quem desejar ler a reportagem sobre o assunto divulgada pelo Portal UOL acesse:
Quem quiser verificar o compromisso do McDonald’s com o meio ambiente, acesse (em inglês):
http://www.aboutmcdonalds.com/mcd/csr/about/environmental_responsibility.html
Todas as empresas que de alguma forma implantaram Sistemas de Gestão Ambiental (SGA’s), certificados ou não pela Norma ISO 14001, criaram um processo de avaliação de desempenho. Para tal, fazem uso de indicadores e métricas.
As limitações e equívocos das empresas no uso de indicadores e métricas já foi objeto de um post aqui no blog (www.silvaporto.com.br/blog/?p=426) Naquele texto alertamos para os riscos da empresa empregar apenas Indicadores de Ecoefiência, pois eles são muito limitados e dão uma falsa ideia de que se está realmente caminhando em direção a sustentabilidade.
De nossa experiência de quase 20 anos traballhando com gestão ambiental empresarial, concluímos que mesmo que a empresa usasse adequadamente Indicadores de Ecoeficiência em conjunto com Indicadores de Sustentabilidade, faltava o emprego de algum índice que expressasse o resultado global da organização. Isso é fundamental para a correta avaliação do resultado do SGA implantado e tem grande poder de motivar as pessoas envolvidas (é muito mais produtivo ter o grupo lutando por uma melhoria na “nota global” da empresa do que em dezenas de indicadores).
Alguns desses índices têm sido propostos na literatura, como por exemplo, o Índice de Pressão Ambiental (IPA) de processos industriais, criado pela Engenheiro Luciano Miguel Moreira dos Santos. Tratam-se de índices com base científica, extremamente criteriosos, porém de difícil aplicação prática no dia a dia de uma indústria, notadamente pela dificuldade na obtenção de dados (dados de condições ambientais do Planeta, por exemplo).
Assim, dentro da metodologia de Gestão Ambiental Avançada que desenvolvemos, a Gestão Ambiental de Alto Desempenho (GAAD), criamos um índice que mede o resultado global da indústria, o qual chamamos de Índice de Desempenho Ambiental da Indústria (IDAI).
O IDAI baseia-se na metodologia do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, em que se define um valor máximo e mínimo para cada indicador e depois se determina a posição do indicador medido na indústria. É um índice sem base científica, porém muito prático, fácil de ser implantado nas empresas e embasado nos princípios da sustentabilidade.
O IDAI é o produto final de quatro índices:
- Índice de Uso de Recursos Naturais
- Índice de Uso de Energia
- Índice de Resíduos
- Índice de Uso de Substâncias Tóxicas
O IDAI, assim como o IDH, tem valor máximo de 1 e pode ser entendido como uma porcentagem de atingimento da meta final (condição ideal). Se uma indústria tiver um IDAI de 0,45 significa que ela ainda precisa caminhar 55% para chegar à condição ideal.
Como o índice se baseia nos princípios da sustentabilidade, os resultados para a grande maioria das empresas será baixo. Por exemplo, a condição ideal do uso de energia é que toda a energia empregada seja de fontes limpas (solar, eólica, etc.), o que é ainda muito difícil em alguns países, como o Brasil. Todavia, o fato do IDAI apontar valores baixos é sinal de que as empresas ainda têm muito o que fazer, o que pedagogicamente é muito importante, pois o que mais vemos nas corporações são pessoas desmotivadas por achar que a obtenção e manutenção de uma certificação pela ISO 14001 é o estágio máximo que a gestão ambiental pode chegar.
O IDAI é uma proposta com muitas limitações, principalmente por estar restrita ao processo industrial (não considera o ciclo de vida completo dos produtos), porém é uma ferramenta prática e muito útil para qua a Direção, os colaboradores e a sociedade acompanhe o real resultado da gestão ambiental implantada em uma empresa.
Desde 2007 realizamos um treinamento específico sobre avaliação de desempenho nas empresas, o curso MÉTRICAS E INDICADORES AVANÇADOS DE DESEMPENHO AMBIENTAL. Esse curso também pode ser realizado in company. Detalhes em www.silvaporto.com.br/treinamento.php
Quem desejar mais informações sobre a implantação do IDAI em uma empresa pode nos procurar através do e-mail futuro@silvaporto.com.br
Participei recentemente da Sustentável 2009, grande evento sobre Gestão Ambiental e Sustentabilidade realizado em São Paulo e promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Chamou-me a atenção o fato de grandes empresas ainda usarem o modelo da ecoeficiência como base de seu Sistema de Gestão Ambiental.
É compreensível que um evento do CEDBS priorize o modelo da ecoeficiência, uma vez que o WBCSD (World Business Council for Sustainable Development), “pai do CEBDS”, foi a instituição que propôs o modelo. Mas depois do desenvolvimento de modelos mais avançados de Gestão Ambiental, com foco na sustentabilidade, e de toda a discussão que veio na sequência, me assustou ver na Sustentável 2009 empresas mostrando gráficos de consumo de água e consumo de energia por unidade produzida como demonstração do progresso em direção à sustentabilidade. Uma empresa disse inclusive que se o Brasil aumentasse sua reciclagem de plástico seria o país mais sustentável do mundo.
O modelo da ecoeficiência produziu ganhos significativos para as empresas, mas está esgotado. O equívoco básico desse modelo é que ele tem como foco a melhoria contínua em relação ao estágio atual dos processos produtivos, que sabidamente são insustentáveis. Com a ecoeficiência as empresas correm o risco de estarem “melhorando aquilo que não deveria estar sendo feito”. É como buscar ganhos de produtividade em uma indústria de máquinas fotografias analógicas. Ação insuficiente para vencer os desafios impostos pelo mercado.
Vamos dar um exemplo definitivo. Considerem os dois gráficos abaixo (fonte: Energy Information Administration, 2006). Os dois representam a emissão mundial de Gases de Efeito Estufa (GEE). O primeiro mostra a emissão relativa de GEE, em relação ao PIB mundial (indicador de ecoeficiência, como o consumo de água por unidade produzida em uma empresa, por exemplo). Se imaginarmos que a ecoeficiência é o modelo a ser seguido, olhando o gráfico podemos concluir que o problema do Aquecimento Global está resolvido, uma vez que a emissão de GEE em função do PIB vem caindo e tende a cair muito ao longo do tempo.
Mas a natureza não considera dados relativos. Ela quer saber dos resultados absolutos, daquilo que efetivamente a está pressionando. E o segundo gráfico mostra a emissão mundial absoluta de GEE. Não é preciso dizer mais nada não?
Assim, uma empresa pode estar muito feliz por ter reduzido seu consumo de energia por unidade produzida em 5% no ano. Porém, a produção dessa empresa aumentou 10% no ano, o que significa que aumentou sua pressão sobre a natureza. Além disso, pensar em consumo de água e de energia sem considerar a fonte desses insumos vai contra a sustentabilidade.
Em entrevista para a revista Exame, até mesmo o Presidente do CEBDS, Fernando Almeida reconheceu o esgotamento do modelo da ecoeficiência: “Durante muito tempo pensei que a adoção de práticas de melhoria contínua, como a ecoeficiência, seriam suficientes para nos tirar desse impasse. Elas continuam valendo, mas não bastam. São remédios de atuação muito lenta em comparação com a velocidade da degradação ambiental e social que estamos vivendo”.
A ecoeficiência deve continuar existindo, mas nunca no modelo atual. Primeiro precisamos compreender o conceito e os princípios da sustentabilidade. A melhoria contínua deve se basear na condição ideal (sustentabilidade) e nunca na condição atual (insustentabilidade).
É só refletirmos um pouco. Se todas as empresas do mundo fossem avançadas em ecoeficiência, porém mantivessem seus processos produtivos e modelos de negócio atuais, a crise ambiental estaria resolvida?
Há uma diferença significativa entre os conceitos de Produção Limpa (PL) e Produção Mais Limpa (P+L). O que a princípio parece apenas uma sutil diferência semântica, na verdade traz uma grande diferença em termos de resultados para a sustentabilidade empresarial.
Muitas empresas têm implantado Programas de Produção Mais Limpa com o intuito de reduzir seu impacto sobre o ambiente. Apesar de ainda incipiente, a adoção da P+L tem trazido resultados importantes em muitas empresas. Recentemente, um novo termo vem sendo usado no lugar da Produção Mais Limpa: Ecoeficiência.
Todavia, como o conceito de sustentabilidade é bem mais recente e muito pouco compreendido, as empresas não percebem a limitação do conceito de Produção Mais Limpa. Ecoeficiência e P+L implicam em reduzir o impacto ambiental do processo produtivo que está sendo realizado, independentemente se tal processo é sustentável ou não. Portanto, não há ligação obrigatória entre sustentabilidade e Produção Mais Limpa/Ecoeficiência. Já a Produção Limpa busca implantar um processo realmente limpo, ou seja, sustentável.
Uma vez um aluno meu disse algo que sempre uso para explicar as diferenças entre PL e P+L. Ele disse que Produção Mais Limpa é o mesmo que “Produção Menos Suja”, pois não é um processo efetivamente limpo. É simplesmente um processo mais limpo que o atual. E nós não queremos uma produção menos suja, nós queremos uma produção limpa.
Um exemplo atual demonstra bem o que estou dizendo. Quando foi constatado que o principal causador da diminuição da Camada de Ozônio eram os gases CFC’s, a indústria e os centros de pesquisa buscaram novas alternativas de gases refrigerantes. O foco foi melhorar o processo existente (Produção Mais Limpa) e não buscar um processo sustentável (Produção Limpa). Os cientistas propuseram então o emprego dos HFC’s (hidrofluorcarbonos). Houve um ganho significativo, pois o impacto na Camada de Ozônio foi reduzido. Porém, como a substância alternativa não foi avaliada sob o prisma da sustentabilidade, descobre-se agora que o uso dos HFC’s contribui muito para o Aquecimento Global.
Um estudo técnico holandês publicado no mês passado concluiu que em 2050 as emissões de HFC’s podem equivaler a mais de 10% das emissões globais de gás carbônico. O estudo pode ser copiado em nossa BIBLIOTECA ONLINE DE SUSTENTABILIDADE:
www.silvaporto.com.br/admin/downloads/A_CONTRIBUICAO_DO_HFC_PARA_O_AQUECIMENTO_GLOBAL.pdf
Pelo exposto, fica claro que precisamos compreender as limitações da Produção Mais Limpa e buscar sempre avaliar os processos produtivos sob a ótica da sustentabilidade. O desafio ambiental é tamanho que só melhorar os processos produtivos existentes não é suficiente.