
Ouçam no link abaixo nossa entrevista para a série especial de reportagens da Rádio Eldorado sobre os desafios que o novo presidente terá na área ambiental.
Na entrevista abaixo para o jornal Folha de São Paulo o jornalista americano Thomas Friedman defende que a taxação do carbono é a única solução para o problema do Aquecimento Global.
O jornalista americano Thomas Friedman, um dos principais colunistas do “New York Times”, afirma que os EUA podem “voltar aos trilhos” e recuperar sua liderança global com investimentos maciços em tecnologias de energia limpas, o que só será possível com uma estrutura tributária que preveja, por exemplo, taxação sobre o preço do carbono.
Essa é a ideia central de “Quente, Plano e Lotado” (ed. Objetiva, 605 págs.), que chega às livrarias brasileiras na quarta-feira, 24. O livro é um aprofundamento do best-seller “O Mundo é Plano” (ed. Objetiva), que desde 2005 vendeu 85 mil exemplares só no Brasil.
FOLHA - A ideia-chave de “Quente, Plano e Lotado” pode ser resumida na frase do presidente Barack Obama: “A nação que liderar a economia da energia limpa será a que irá liderar a economia global; e os EUA precisam ser essa nação”. Que argumentos sustentam essa ideia?
THOMAS FRIEDMAN - Algumas pessoas não acreditam no “quente”. Tudo bem, deixemos apenas o plano e o lotado. Plano é minha metáfora para mais e mais gente se juntando à classe média mundial e vivendo como americanos, quer estejam no Brasil, na Índia ou na China.
Lotado é porque há cada vez mais e mais pessoas. No mundo plano e lotado há cada vez mais gente com casas, carros e Big Macs do tamanho americano. É claro para mim que a próxima indústria global será a tecnologia energética (TE), que vai capacitar mais e mais gente a melhorar seu padrão de vida sem queimar e destruir o planeta. O país que detiver TE terá mais segurança energética, nacional e econômica, companhias inovadoras e respeito global. Claro, quero que esse país seja o meu, mas quero que todos aspirem a ser essa nação.
FOLHA - O sr. não crê em decisões tomadas em conferências globais.
FRIEDMAN - Exatamente. Alguém tem de me provar que funciona. Não sou contra o Protocolo de Kyoto ou o esforço de Copenhague, mas, se você conseguir fazer com que 193 países concordem, Deus te abençoe. Na falta disso, quero liberar meus inovadores e engenheiros para tentar o mesmo objetivo por meio da inovação.
FOLHA - O que deve ser feito para estimular esse tipo de iniciativa?
FRIEDMAN - Precisamos de políticas tributárias para incentivar, a longo prazo, a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia limpa. Houve um pouco no pacote de estímulo, mas é necessário muito mais. É preciso uma política de preços para o carbono. Sem isso, nada acontecerá. Sou um crente no mercado. Uma taxação de longo prazo, fixa e durável, estimularia 10 mil inovadores verdes em 10 mil garagens, tentando 10 mil coisas. Mil serão promissoras, cem serão realmente legais, e duas, os próximos Google e Microsoft limpos, que nos darão o que precisamos: elétrons confiáveis, limpos, baratos.
FOLHA - Uma pesquisa do Instituto Gallup mostrou que há mais céticos do aquecimento global hoje do que em 1997. Em que o discurso das mudanças climáticas está falhando?
FRIEDMAN - Infelizmente, a combinação tóxica de “climagate” [divulgação de e-mails de climatólogos, revelando tentativa de negar informação a céticos do clima], “relativamente pequenos” erros no IPCC [acusado de ter cometido erros em relatório] e recessão -e o fato de as pessoas mais do que nunca quererem energia barata- permitiu aos negacionistas confundir as pessoas e poluir o debate. Quem não queria acreditar ganhou razões para isso. E cientistas, políticos e membros do governo fizeram mau trabalho defendendo o caso.
FOLHA - Em ano de eleição, é possível algo favorável no Congresso?
FRIEDMAN - No momento, a estratégia está mudando. Pessoalmente, creio que o projeto “cap-and-trade” [comércio de permissões para emitir CO2] esteja morto. Agora, os senadores John Kerry, Lindsey Graham e Joe Lieberman estão trabalhando numa estratégia baseada em três princípios. O primeiro: nunca use a palavra “clima”. Fale sobre “limpar o ar”. “Clima” se tornou uma palavra suja. Segundo: dizemos que estamos fazendo isso para criar empregos; energia solar, baterias, eficiência energética, tudo isso rende muito emprego. E, terceiro, dizemos que estamos fazendo isso por segurança nacional, para ficarmos menos dependentes do petróleo do Oriente Médio. Esse é o novo consenso bipartidário, democratas e republicanos. Mas, se haverá senadores o suficiente para isso, não sei.
Vejam abaixo a entrevista de Al Gore para o jornalista Marcelo Leite, da Folha de São Paulo, edição de 15/3/2010. Uma grande mensagem dele é que a eficiência energética é a melhor forma de energia limpa.
FOLHA - Seu recente livro “Nossa Escolha” transmite uma mensagem tão sóbria quanto otimista: uma catástrofe inimaginável nos espreita se não agirmos, mas ainda há tempo e ferramentas bastantes para solucionar três ou quatro crises do clima. Não é otimismo demais?
AL GORE - Acho que não. Nos últimos três anos organizei mais de 30 “cúpulas de soluções” com os maiores engenheiros, cientistas e empresários do mundo e fiquei agradavelmente surpreso ao descobrir como está avançado o desenvolvimento dessas soluções. O Brasil, por exemplo, tem liderado o mundo ao inovar um meio muito eficaz de empregar biomassa [cana-de-açúcar] para substituir combustíveis líquidos baseados em petróleo. De modo similar, outros países fizeram progressos em energia solar, eólica e geotérmica. Portanto, não acho que seja otimista demais, de jeito nenhum. Mas o ingrediente essencial continua a ser vontade política. Mesmo com a sensacional liderança do Brasil em Copenhague, o mundo como um todo ainda não forneceu vontade política suficiente para implementar as soluções em grande escala. Mas estou otimista que o farão.
FOLHA - Eu me referia à sua afirmação de que “três ou quatro” crises climáticas podem ser solucionadas com as ferramentas à mão.
GORE - Se nos lançarmos numa guinada para formas de energia renováveis e de baixo carbono em transportes, imóveis residenciais e comerciais e agricultura e silvicultura sustentáveis, podemos solucionar totalmente a crise do clima, com folga.
FOLHA - Há um componente tecnológico forte em seu otimismo: computadores e satélites nos ajudarão a enxergar a luz [da verdade] sobre o planeta e seu clima. Mas o exemplo do satélite DSCOVR/Triana, do livro, também pode ser visto como um alerta sobre o poder dos governos de impedir que isso aconteça. Tecnologia e ciência sairão sempre vitoriosos?
GORE - (Ri) Depende de nós, em nossos respectivos países, garantir que as políticas públicas se baseiem na melhor ciência e na melhor informação disponíveis. No caso do Triana: o satélite acaba de ser incluído no orçamento do presidente Obama para este ano.
FOLHA - Foi mero atraso, então?
GORE - Um longo e custoso atraso. Os negacionistas do clima têm combatido em todas as frentes para impedir o progresso. Há alguns que acreditam genuinamente que não se trata de uma crise, mas o grosso da oposição vem dos maiores poluidores de carbono, que não querem ser obrigados a assumir a responsabilidade por deitar fora enormes quantidades de poluição na atmosfera terrestre, como se ela fosse um imenso esgoto a céu aberto. Assim como as companhias de tabaco lutaram contra as limitações à comercialização de cigarros atacando os cientistas que fizeram a ligação entre cigarros e doenças do pulmão, os grandes poluidores de carbono estão atacando os cientistas que conduziram os estudos mostrando conclusivamente que a poluição do aquecimento global produzida pelo homem está causando a crise do clima.
FOLHA - A espécie humana jamais fez uma escolha coletiva sobre seu futuro. O sr. é o primeiro a dizer, no livro, que essa perspectiva parece absurda. O que o deixa tão seguro de que estamos à altura da tarefa?
GORE - Nós temos de fazê-lo, para expressar o amor que temos pelos nossos netos. Para evitar sermos lembrados pelas gerações futuras como uma geração criminosa, que ignorou de forma egoísta e cega os claros sinais de que o seu destino estava em nossas mãos. Porque o modo como fomos criados nos dá um respeito destemido pela verdade e pela justiça. Não importa quanto tempo ela seja obscurecida por aqueles que encaram a verdade como inconveniente, cedo ou tarde os anjos de nossa melhor natureza vencerão.
FOLHA - O sr. é mesmo otimista.
GORE - Houve momentos no passado em que a civilização foi confrontada com ameaças que pareciam inimaginavelmente difíceis. O totalitarismo ameaçou exterminar a liberdade. Pareceu improvável, em alguns instantes, que as forças da democracia e da liberdade venceriam. Mas elas conseguiram, se puseram à altura do desafio. Houve outros exemplos. Muitos achavam que as mulheres nunca receberiam permissão para votar e participar de modo igualitário na sociedade. Nos séculos passados, muitos achavam que a escravidão era uma condição natural, que deveria ser tolerada.
FOLHA - Há muitos lugares do mundo onde o totalitarismo ainda é uma ameaça e os direitos das mulheres não são respeitados.
GORE - Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, era forte a ameaça de que o totalitarismo iria extinguir a liberdade. Com a vitória, a democracia ganhou essa luta e claramente o movimento está a favor da democracia e da liberdade, hoje.
FOLHA - Mas isso nos custou uma guerra enorme e sangrenta.
GORE - É verdade.
FOLHA - Espero que não cheguemos a tanto no clima.
GORE - (Ri) Isso não vai acontecer.
FOLHA - Se o sr. tiver de destacar uma prioridade em termos de energia, seria a eólica? Ou seria mais esperto, para países como o Brasil, investir antes na montagem de uma super-rede elétrica inteligente, capaz de lidar com uma ampla variedade de fontes de energia renovável, de biomassa a hidreletricidade?
GORE - Acho que temos de fazer várias coisas simultaneamente. Uma super-rede é importante para o uso de todas as formas de energia renovável. Tanto a energia eólica quanto a solar são muito promissoras. A segunda e terceira gerações de biomassa são igualmente promissoras. Mas o maior recurso são as melhorias de eficiência. E o passo singular que poderia ser dado para estimular o progresso em todas essas áreas é pôr um preço no carbono, de modo que o custo da redução da poluição seja integrado nas decisões do mercado. Isso estimularia todas as formas de energia renovável e todos os recursos de eficiência.
FOLHA - O sr. tem preferência por impostos sobre o CO2 ou por limites e comércio de permissões para emitir carbono (”cap-and-trade”)?
GORE - Prefiro ambos. A vantagem da abordagem “cap-and-trade” está na eficiência oferecida para a coordenação global, sem requerer que os governos tomem decisões todos os dias. Se os valores estão incluídos no mercado, então o mercado pode ser um aliado na seleção de todas essas possibilidades. Mas não há dúvida de que um imposto sobre o CO2, neutro em termos de renda, seria uma opção poderosa. A Escandinávia e alguns países, como a França, já o estão usando. É difícil imaginar um imposto de carbono globalmente harmonizado, por isso a noção de “cap-and-trade” é provavelmente melhor como base para a coordenação internacional.
FOLHA - Copenhague não terminou como se esperava, e muitos duvidam que Cancún possa levar a um tratado legalmente vinculante. Yvo de Boer renunciou ao posto de secretário da Convenção de Mudança Climática da ONU. O IPPC está sob fogo cerrado. Obama enfrenta dificuldades para conseguir que o Congresso dos EUA vote a legislação sobre clima e energia. Ainda temos motivo para manter o otimismo?
GORE - (Ri) Sim, temos. Porque ainda há um movimento de base em todo o mundo, crescente, para enfrentar essa crise. Nos EUA a legislação está seguindo em frente e será votada em poucos meses. O fracasso em Copenhague se deveu primariamente ao fato de o Senado dos EUA ter falhado em aprovar essa legislação antes da conferência, forçando o presidente Obama a negociar com ambas as mãos atadas às costas. Como ele não podia pôr essa legislação sobre a mesa, os chineses resistiram a fazer concessões de seu lado, de modo que os dois maiores poluidores deixaram de agir. Isso fez o restante do mundo adiar a ação. Se os EUA aprovarem a legislação antes da conferência de Cancún, poderemos ver uma dinâmica muito diferente em ação.
FOLHA - O sr. estará no fim do mês em Manaus, para um seminário que terá também o cientista Tom Lovejoy e o cineasta James Cameron. O sr. acha que o filme “Avatar” terá um papel em despertar consciências para o tipo de problemas da floresta que o sr. trata em seus livros e seu próprio documentário?
GORE - É um filme com uma metáfora muito poderosa. Sou grande fã do filme. Tanto James Cameron quanto Tom Lovejoy são meus amigos. Lovejoy é um cientista com quem trabalho há anos. Ele me levou em minha primeira viagem para a Amazônia, 30 anos atrás.
Vejam abaixo entrevista de Claudio e Suzana Padua, fundadores da ONG Ipê (instituto de Pesquisas Ecológicas), para o jornal Folha de São Paulo. Eles criticam as ONG’s internacionais que desenvolvem projetos no Brasil.
FOLHA - Como vocês veem a evolução do movimento ambientalista desde quando o Ipê surgiu, na época da Eco-92 até hoje?
CLAUDIO - A década de 90 não foi promissora, tivemos avanços, mas perdemos uma quantidade enorme de florestas tropicais nesse período. As metas de Kyoto não foram cumpridas. Fazer meta para aparecer na foto é fácil, o problema é não ter um mecanismo que possa depois verificar e punir de alguma forma quem não as alcance. As pessoas estabelecem metas de maneira irresponsável.
SUZANA - A natureza também nunca entrou como valor econômico, ela sempre veio de graça. Se você a tem de graça, tudo o que se refere a sua proteção está atrapalhando o progresso, porque ela está ali para servir a quem está enriquecendo.
Se todo mundo vivesse o padrão de vida norte-americano, segundo estimativas canadenses, seriam necessários hoje, no mínimo, quatro planetas. Não vamos chegar lá. Esse crescimento indiscriminado é uma falácia, não chegaremos ao desenvolvimento no padrão de consumo do jeito que está preconizado atualmente.
O que está fazendo falta neste momento é investimento em tecnologia, como os países desenvolvidos estão fazendo. Como posso manter meu padrão de vida consumindo 10% do que estou consumindo em termos de energia e água? É uma combinação de coisas. E o Brasil tem todo o potencial, mas não investe nele.
FOLHA - Qual seria o papel do governo e da sociedade nesse cenário de emergência na questão do clima?
CLAUDIO - Nós temos de cobrar de quem fala por nós um posicionamento pelo futuro do planeta e nosso, pois não é coisa para as gerações de um futuro muito longínquo. Há quem fique querendo diminuir a qualidade das previsões do IPCC [painel do clima da ONU], mas eles são os melhores pesquisadores do planeta e não devem estar errados.
SUZANA - Os assentados do Pontal que trabalham com a gente compreendem isso, a premissa de que, com floresta, o resto da propriedade melhora, tem menos peste, o solo fica melhor, a água fica protegida.
No micro, nós, como ONG, podemos atuar. O desafio é conseguirmos entrar na escala em termos internacionais. Há ONGs como o Ipê em várias partes do mundo, com base em ciência, academia, de tamanho médio, nacionais, trabalhando na ponta com os problemas verdadeiros.
Conseguimos atuar dentro dos nossos microcenários, mas precisamos de alguma maneira de uma voz que seja mais ouvida internacionalmente. De baixo para cima, não de cima para baixo, porque o que a gente sente é que há uma tendência grande de as coisas virem prontas e de o pequeno ser obrigado a cumpri-las.
CLAUDIO - São criadas pelas políticas ambientais internacionais, desenvolvidas no mundo das agências multilaterais com quem tem assento nelas: organizações enormes. Por isso nós estamos agora em alianças, na tentativa de conseguir uma representação para sermos iguais nesse processo.
FOLHA - Existe uma dicotomia entre as ONGs nacionais e as internacionais?
CLAUDIO - Existem ações diferentes e representações diferentes com atividades totalmente diferentes.
SUZANA - O peso das ONGs grandes nas decisões é muito maior que o das pequenas locais, como o Ipê. Isso é natural, porque elas se dedicam muito às políticas internacionais.
Tem uma delas de que várias pessoas do Ipê e da Wildlife Trust Alliance [aliança de ONGs de médio porte] também fazem parte, que é a UICN [União Internacional de Conservação da Natureza]. Eles têm cadeira na ONU e estão abrindo um escritório no Brasil. Mas ainda faltam assentos.
CLAUDIO - Um dos nossos objetivos na Alliance é contratar em curto prazo uma pessoa para buscar assentos nesses órgãos multilaterais.
FOLHA - De que tema que as grandes ONGs internacionais não abordam vocês falariam lá?
SUZANA - Não acho que a gente falaria o que eles não falam, mas é a forma de fazer, porque os grandes têm os princípios muito corretos, querem reflorestamento, manutenção das florestas nativas, a biodiversidade mais bem protegida.
Mas, na forma de fazer acontecer nos países, as ONGs menores, de médio e pequeno portes, apresentam um papel extraordinário, que as grandes normalmente atropelam.
FOLHA - Atropelam como?
SUZANA - Na implementação. Por exemplo, você se compromete a reflorestar determinada área, encontra locais altamente importantes para a biodiversidade e quer proteger aquele núcleo, fazer um cinturão verde. Como é que vai fazer?
As grandes têm mais facilidade de levantar fundos, mas, na hora de implementar, muitas vezes não têm a estrutura. Então sublocam as ONGs menores -e isso é complicado.
FOLHA - Elas contratam ONGs menores?
SUZANA - Muitas vezes contratam ONGs ou pessoas locais, mas a forma de fazer vem muito de cima para baixo.
CLAUDIO - Um é rico em dinheiro, e o outro, em biodiversidade. Quem é rico em dinheiro tem que ouvir quem é rico em biodiversidade para saber a melhor forma de fazer. Muitas vezes o rico em dinheiro chega com o projeto pronto, dizendo o que fazer, com a frase “eu sei o que é melhor para vocês”.
SUZANA - E isso eu não acho certo. É a mesma coisa que o governo faz: um projeto para a região do Pontal do Paranapanema sem consultar as pessoas locais. Tudo o que vem de cima para baixo raramente dá certo.
Leva tempo para construir confiança, para ter um grupo de pessoas com que você atua.
Às vezes elas [as grandes ONGs] não têm tempo, têm de mostrar resultado, porque coletaram verba que precisa ser gasta de determinada maneira.
Avalio que as ONGs internacionais teriam um papel fundamental -e durante um tempo, bem no inicio, até tiveram- na capacitação das pessoas locais.
Se o recurso angariado tivesse um componente forte em capacitação, elas construiriam um exército de sabedoria.
FOLHA - Essa necessidade de resultados rápidos com ONGs sublocadas pode fragmentar o processo?
CLAUDIO - Sim. Ninguém investe em capacitação, pois dá resultados muito fortes, mas lentos. Mas o medo não é só das ONGs, é do governo também.
SUZANA - No Ipê, fizemos esforço para capacitação a vida inteira. Começou internamente, incentivávamos os estagiários a partirem para o mestrado, o doutorado. Hoje o instituto tem esse ponto forte [30% de mestres e doutores].
Enquanto os Estados Unidos têm mais de 300 cursos sobre biologia da conservação, a América Latina inteira tinha 12 cursos até algum tempo atrás, para toda essa biodiversidade.
É um ponto muito crucial. Só 30% dos “papers” que são publicados nas grandes revistas, nas reconhecidas, sobre a Amazônia brasileira, tem um autor ou um coautor brasileiro. O resto é tudo gringo. O conhecimento gerado fica no norte e, se não chega até nós, como é que vamos competir? Os pesquisadores [estrangeiros] muitas vezes nem se lembram de mandar cópia para as unidades de conservação em que estudaram. A pesquisa fica lá.
CLAUDIO - Não é só que o conhecimento não chega; nós não o estamos produzindo.
SUZANA - É um grau de desequilíbrio muito grande de conhecimento -e conhecimento é poder. O esforço do Ipê e de outras ONGs -porque a gente não está sozinho nisso- é fazer uma massa crítica que pense diferente. É abrir caminhos para que as pessoas venham a ter um nível de conhecimento que faça a diferença.
CLAUDIO - Nesse espírito, é preciso capacitar fortemente não para as prateleiras das bibliotecas, mas para um conhecimento que se transforme em ações. Não sou contra a pesquisa pela pesquisa, mas às vezes a gente tem vergonha de fazer pesquisa aplicada no Brasil.
SUZANA - É considerada às vezes até de segunda classe. Fica o mundo do conhecimento que é o mundo das universidades, que não se mesclam. No nosso mestrado, temos uma disciplina que está fazendo uma diferença enorme, com resolução de problemas reais.
CLAUDIO - Que é como um [empreendimento] pode beneficiar o outro [uma comunidade] e todos podem beneficiar a biodiversidade. O que tem que desafiar é o tema, e não a sua divisão de conhecimentos
Vejam no link abaixo entrevista de Marina Silva no programa do Lobão na MTV.
http://mtv.uol.com.br/lobotomia/videos/lototomia-pgm-01-marina-silva-08032010
Vejam no link abaixo a entrevista de Marina Silva dada à radio CBN Rio:
Vejam no link abaixo a entrevista sobre Aquecimento Global do climatologista do INPE Carlos Nobre ao Programa Roda Vida da TV Cultura. Vá ao link edições anteriores:
Leiam abaixo entrevista do Professor da ESPM, Fábio Mariano, sobre a preocupação com sustentabilidade dos novos consumidores da Classe C. A matéria é da Folha online.
Na minha opinião, a avaliação geral do especialista está correta, embora ele tenha usado uma linguagem um tanto carregada para expressar suas ideias.
Entretanto, um ponto importante que precisa ser considerado é que uma eficaz Política de Sustentabilidade de uma empresa não deve ter como objetivo apenas vender o produto A ou B dessa empresa, mas sim fortalecer a imagem institucional, demonstrando a responsabilidade socioambiental da organização. Essa imagem fortalecida contribui para que o nome da empresa (e da marca, por conseguinte) fique na mente dos consumidores, inclusive das classes inferiores da pirâmide de renda.
Portanto, o fato de um consumidor da Classe C não considerar a sustentabilidade de determinado produto na hora da compra não significa que ele não escolherá o produto de uma empresa que criou uma imagem forte no mercado com base na sustentabilidade. O grande poder da responsabilidade socioambiental é contribuir para o fortalecimento de uma empresa e de uma marca fortes e não vender determinado produto.
Segue a entrevista
FOLHA - A classe C pensa em consumo responsável ou só quer preço?
FÁBIO MARIANO - Ninguém se importa só com o preço. A classe C, por exemplo, vai ver quanto os eletrodomésticos consomem de energia. Mas porque ela está preocupada com a carteira, não com o mundo.FOLHA - Então a nova classe média não quer saber, digamos, se a carne que compra vem da Amazônia?
MARIANO - Estas pessoas, que até 2000 chamávamos de excluídos, agora estão ganhando uma grana legal para fazer a festa no shopping. E há também o grande boom, que é a expansão do crédito. Mas só isso não adianta. A educação que recebem não está melhor. E precisa ter um certo aparelhamento pessoal para entender o conceito de sustentabilidade.FOLHA - Mas os mais instruídos pagam mais por produtos verdes?
MARIANO - A classe alta até paga um pouco mais por produtos que favoreçam a sustentabilidade, mas ainda é pouco. Mesmo porque não existem muitos produtos assim no mercado. Você consegue citar dez? E, quando existem, a distribuição é restrita, não é algo disponível para as pessoas da classe C. Vai querer que peguem o ônibus para ir comprar no bairro rico?FOLHA - Você não considera justo que o custo da sustentabilidade sobre para o consumidor, então.
MARIANO - Não. Repassar o custo da sustentabilidade é absurdo. Essa imagem de que o consumidor que quer pagar mais é consciente, enquanto o que não quer é um assassino que pretende acabar com o mundo… Vocês deliraram, né?FOLHA - Poucos consumidores parecem pressionar as empresas…
MARIANO - Só os mais esclarecidos. Porque o consumidor tem um monte de problemas. Tem câncer, Aids, é chifrado, tem de pagar a escola do filho. Vai ter que se preocupar também com salvar o mundo quando a esposa está precisando de um medicamento? Querer que o consumidor, além de tudo, pague R$ 5 numa ecobag no supermercado? Empresa que cobra ecobag não tem vergonha.
Vejam no link abaixo entrevista de Al Gore sobre a COP-15 e o papel dos EUA, publicada na revista alemã Der Spiegel, divulgada pelo Portal UOL:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/11/03/ult2682u1369.jhtm
O jornalista Alexandre Mansur, da Revista Época, fez uma entrevista com o executivo Fábio Barbosa, que liderou o trabalho pioneiro de Sustentabilidade do Banco Real.
É um grande ensinamento para as empresas. A meu ver a mensagem mais importante da entrevista é que o mercado é ambientalmente exigente e, portanto, valorizará as empresas que demonstrarem um alto desempenho socioambiental.
FÁBIO BARBOSA: “A EMPRESA VERDE É UM CAMINHO SEM VOLTA”
Para o presidente do grupo Santander, não é mais possível fazer negócios sem preocupação ambiental.
Há oito anos, o banqueiro Fabio Barbosa olhou para sua árvore e viu uma floresta. Então presidente do Banco Real, ele percebeu como uma instituição financeira poderia induzir práticas sociais e ambientais mais responsáveis em todo o setor privado. Levou o banco a adotar atitudes pioneiras, que depois foram incorporadas pelo mercado. Começou com talões de cheque de papel reciclado e evoluiu para práticas inovadoras. Em 2004, o Real expulsou 20 clientes corporativos, inclusive algumas madeireiras na Amazônia, porque não seguiam as leis ambientais. A experiência do Real foi uma das referências para elaborar os Princípios do Equador, uma seleção de critérios socioambientais criada pelo Banco Mundial e hoje praticada por 60 instituições financeiras. Há duas semanas, o Real foi eleito o banco mais sustentável do mundo pelo Banco Mundial e pelo jornal britânico Financial Times. Com a compra do Real pelo Santander, no ano passado, Barbosa foi nomeado presidente das operações do novo banco, o terceiro maior do país.
Época - Um banco não é uma ONG. Por que ele teria de ser bonzinho para a sociedade?
Fabio Barbosa – Não é uma questão de “ser bonzinho”. Trata-se de fazer aquilo em que acreditamos, influenciando outras empresas que compartilhem nossa visão de construir um banco melhor, um mercado melhor e um país melhor. Já temos muita gente nesse movimento, o que ajuda a consolidar o Brasil como referência em sustentabilidade para o mundo.
Época - Hoje, vários bancos fazem propaganda de suas iniciativas socioambientais. Como saber quem é mais empenhado?
Barbosa – Sinceramente, não achamos que seja uma questão para medir ou comparar, e sim para comemorar. Quanto mais empresas, pessoas e governos apoiarem a causa da sustentabilidade, mais rápido teremos empresas melhores e um país melhor. Se o cliente estiver interessado em saber quem está mais avançado na inserção de sustentabilidade, ele consegue comprovar por meio do relacionamento se a prática da empresa condiz com a propaganda.
Época - Todo mundo hoje diz que é sustentável. Cada um com entendimento diferente desse termo tão vago. Como avaliar quem é sério e quem apenas faz propaganda?
Barbosa – Quanto mais empresas e instituições começam a praticar e a comunicar suas ações em sustentabilidade, mais o tema se difunde na sociedade. Há cada vez mais opções de comunicação, e a capacidade de expressão dos consumidores só aumenta. O nível de crítica e de vigilância da sociedade tem aumentado também. E essa é uma ótima notícia, pois ajudará a diferenciar aqueles que realmente fazem daqueles que fazem menos.
Época - É possível aferir as vantagens financeiras que os critérios socioambientais trouxeram para o Banco Real?
Barbosa – Sim. Com os clientes, isso se dá por meio do relacionamento. Uma rede hoteleira queria financiar a reforma e a modernização de dois de seus estabelecimentos. Apresentamos a possibilidade de inserir critérios socioambientais nas reformas, e o resultado foi que o cliente expandiu seu financiamento conosco. Nossa marca também tem ficado mais atrativa. Em 2004, a distância do Real para o banco líder em atratividade da marca era de 13 pontos porcentuais. Hoje, essa distância é de 3 pontos, quase um empate técnico. Isso significa novos clientes. Nos últimos 12 meses, conquistamos 200 mil correntistas. Esse reconhecimento pelo mercado também nos dá acesso a novos financiamentos, como a construção de grandes obras de infra-estrutura, onde somos escolhidos como líderes dos processos que envolvem muitos bancos e ao mesmo tempo responsáveis pela avaliação de riscos socioambientais para os Princípios do Equador. Tivemos também acesso a uma linha de financiamento de US$ 300 milhões do Banco Mundial para projetos socioambientais de nossos clientes.
Época - O Real anunciou que adotou critérios ambientais para selecionar clientes. Mas nos últimos anos só eliminou 50 clientes empresariais de um universo de 6 mil. Isso significa que estão todos ótimos? Ou o critério não é restrito o bastante?
Barbosa – Nossos mecanismos de análise de gestão financeira são bastante rigorosos. Já trabalhamos com os melhores clientes de todos os setores, com foco na boa gestão financeira. Aspectos socioambientais são mais um filtro incorporado, melhorando ainda mais a análise financeira. Temos visto que uma boa gestão financeira se reflete na gestão ambiental de forma positiva. Durante os cinco anos em que fazemos a análise de risco socioambiental, fortalecemos o trabalho de engajamento dos clientes para investir em melhorias rumo à sustentabilidade.
Época - Um empresário no Brasil mal consegue ser competitivo, gerar emprego e dar lucro com a carga tributária atual. Por que ele também precisa adotar critérios socioambientais voluntariamente? Não estamos cobrando muito?
Barbosa – Trata-se de um falso dilema acreditar que ou você é bem-sucedido nos negócios ou faz as coisas certas. Critérios socioambientais, em meu modo de ver, não são um adendo ao negócio. Eles devem ser o jeito de fazer negócios. Quando um empresário toma um financiamento para reutilizar a água e tratar os efluentes e com isso reduz seus custos e aumenta sua produtividade, estamos provando que uma coisa não é antagônica à outra. Temos percebido também que empresas que pontuam melhor no questionário de risco socioambiental que aplicamos têm excelente performance financeira.
Época - Como fazer negócios com esses critérios de sustentabilidade em regiões como a Amazônia, onde madeira e pecuária, algumas das principais atividades econômicas, têm problemas ambientais, fundiários e tributários?
Barbosa – De fato, temos todos os problemas mencionados. Mas temos também clientes que fazem as coisas do jeito certo. É com esses que temos procurado trabalhar. Temos empresários que há anos exportam madeira da Amazônia fazendo o manejo sustentável. Outros que contam com certificações. Existem maneiras – e esses nossos clientes provam isso – de fazer negócios e manter a floresta de pé.
Época - O que faremos com todos esses investimentos empresariais em políticas responsáveis com o meio ambiente se essa onda de preocupações passar?
Barbosa – Essa não é uma “onda”, mas um caminho sem volta. Tudo o que está sendo feito veio para ficar. Principalmente porque é a sociedade que está cobrando e porque não há outro jeito de se fazer. Os americanos dizem: “Quando as pessoas fazem, os líderes seguem”. Os consumidores, tanto no Brasil como no mundo, estão cada vez mais exigentes e conscientes sobre o assunto, forçando as empresas a mudar suas práticas.
Época - Como o senhor acordou para os cuidados socioambientais?
Barbosa – Sempre procuro fazer as coisas certas do jeito certo. Meus valores familiares sempre reforçaram isso, e, aos poucos, percebi que existe uma receptividade da sociedade. Essa crença ficou mais forte com o tempo e agora, em que a sociedade passa por um grande momento de transição, com o Brasil se tornando um país cada vez mais maduro, isso está sendo cada vez mais valorizado. E cada vez mais pessoas vêm nesse caminho.
Época - O que o senhor mudou em sua vida pessoal para reduzir a pegada ecológica?
Barbosa – O filósofo americano Ralph Waldo Emerson disse: “Suas atitudes falam tão alto que não consigo ouvir o que você diz”. Precisamos ter coerência nas atitudes. No meu dia-a-dia, faço algumas coisas para isso. Reduzimos desperdício e reciclamos o lixo em São Paulo e no interior, onde estou certificando meu plantio de café como sustentável. Tenho satisfação em ver a preocupação socioambiental de meus filhos e dos amigos deles. A próxima geração, que já está chegando ao comando das empresas, tem um jeito novo de olhar o mundo. Eles, certamente mais do que nós, terão condições de deixar um mundo melhor para as próximas gerações.
Vejam abaixo uma excelente entrevista das páginas amarelas da Revista Veja, já de alguns meses, com o especialista em política energética Jeremy Rifkin. Lendo o texto percebemos o quanto estão certos aqueles que dizem que o Governo Brasileiro está na contramão da história ao não incentivar o uso de energia limpa, em um país com tantas possibilidades.
SOMOS VICIADOS EM PETRÓLEO
Jeremy Rifkin, de 63 anos, é o consultor a quem os governantes de alguns dos principais países europeus recorrem quando o assunto é energia. Na Alemanha, ele ajudou a implantar o plano de adoção de fontes renováveis que reduziu a dependência do petróleo e do gás no país. Fez o mesmo trabalho para o primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, para o presidente francês, Nicolas Sar-kozy, e para o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso. Autor de dezessete livros, Rifkin defende a tese de que a atual crise financeira, a crise energética e o aquecimento global estão interligados e não serão solucionados separadamente. “Eles se retroalimentam e, juntos, formam a pior das tempestades. Para sair do pântano financeiro e climático, é preciso acelerar a revolução verde”, ele diz. Rifkin deu a VEJA a seguinte entrevista.
Os países ricos entraram em recessão e muitos anunciaram cortes em vários setores da economia. O momento é adequado para investir em energias renováveis?
Este é o momento certo. Se não acabarmos agora com o vício do petróleo, os danos serão muito piores. Compara-se a crise atual com a Grande Depressão. Não há dúvida de que as duas têm pontos em comum, mas a devastação financeira e emocional provocada pela atual crise deixou parte do mundo cego para enxergar diferenças cruciais entre elas. Na década de 30, havia uma crise econômica. Hoje, o planeta enfrenta três crises simultâneas: a financeira, a energética e o aquecimento global. É o que chamo de a tripla armadilha. Elas estão interligadas e se retroalimentam. Não há como resolvê-las separadamente. Em breve, seremos 9 bilhões de habitantes no planeta. O impacto dessa população na produção de bens e no consumo será enorme, por mais que haja desaceleração econômica. Isso aumentará ainda mais a demanda por petróleo e outros combustíveis fósseis, como carvão e gás, cada vez mais escassos. Se não houver uma mudança, vamos entrar numa roda-viva de turbulências.
O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, diz que os custos para desenvolver novas energias e para combater o aquecimento global são excessivamente altos. Isso é sinal de que a revolução energética será adiada até pelos europeus, que tanto a defendem?
Com sua visão ultrapassada de mundo, Berlusconi desconhece que não enfrentamos uma crise qualquer. Estamos na passagem entre duas eras. Olhar para a velha economia e buscar soluções nos parâmetros tradicionais não vai funcionar. Pessoas retrógradas como ele podem levar a Europa e o planeta ao fundo do poço. Nesse ponto, vale a analogia com a crise de 1929. A Grande Depressão foi uma das conseqüências da transição entre a primeira revolução industrial e a segunda, entre o vapor e a eletricidade. Está na hora de iniciarmos a terceira, a revolução verde. Ela não pode ser adiada. É o impulso que pode fazer a economia global andar de novo. Os principais governos europeus já deram os primeiros passos nessa direção e se mostraram dispostos a continuar no mesmo caminho durante o encontro sobre o clima em Poznan, na Polônia, há duas semanas. O melhor exemplo de como a energia verde funciona está na Alemanha. Em oito anos, o país reduziu drasticamente sua dependência do petróleo. Metade da energia solar existente no mundo é produzida lá. O governo alemão não está temeroso diante da crise. O ministro dos Transportes da Alemanha acaba de anunciar incentivos à produção de carros elétricos que devem resultar na produção de 1 milhão de veículos desse tipo no país até 2020.
O preço do barril de petróleo, que ultrapassou 140 dólares, caiu agora para 45 dólares. A baixa no preço dos combustíveis não desmonta seus argumentos?
De forma alguma. O valor atual do barril de petróleo demonstra apenas que a economia está paralisada pelos efeitos da crise financeira. Por causa do aumento da população mundial e do consumo, o preço do petróleo vai subir em breve, por mais lenta que a economia esteja. A Agência Internacional de Energia prevê que o barril atinja os 100 dólares no ano que vem e permaneça assim até 2015. O barril deverá custar 200 dólares em 2030. Com o preço do petróleo nesses patamares, não há como o mundo funcionar. O valor do petróleo repercute em todos os bens de consumo. Comida, roupas, carros, papel, computadores, todo produto que consumimos hoje tem seu valor pressionado pelo combustível. Com o petróleo muito caro, os preços sobem tanto que a economia do planeta inteiro se contrai. O poder de compra diminui, as fábricas fecham as portas, pessoas perdem o emprego. Aí reside um dos principais argumentos sobre a necessidade de novas fontes de energia. Quando o barril chegou aos 147 dólares, em julho, aconteceu o que chamo de pico da globalização. Atingimos uma barreira intransponível.
Por que o senhor diz que o pico da globalização ocorreu quando o preço do petróleo atingiu seu recorde histórico?
A globalização, que nasceu com o aumento do poder de consumo dos americanos e fomentou a prosperidade mundial, entrou em declínio. A falha da globalização é ter sido fundamentada na premissa de que a energia é barata. O preço baixo dos combustíveis fez com que os países ricos começassem a movimentar uma enorme quantidade de capital para fabricar seus produtos em lugares distantes, como China e Índia. Com isso, um terço da população mundial, que antes não consumia, começou a fazê-lo. Surgiu uma nova classe média global. Só nos últimos cinco anos, o hiperconsumo quadruplicou o preço do petróleo. A globalização tornou-se insustentável do ponto de vista econômico e ambiental. Com os recursos naturais de que dispõe, o planeta é capaz de abrigar apenas 200 milhões de pessoas com o estilo de vida de um cidadão americano.
Como convencer os governos e os investidores a aplicar dinheiro numa mudança radical de matriz energética sem garantia de que ela será bem-sucedida?
Investir no futuro não significa descuidar-se do presente nem cometer um suicídio econômico. É necessário adotar a estratégia dos dois trilhos de trem. Por um lado, diminuem-se o desperdício dos combustíveis fósseis e das centrais nucleares e seus respectivos danos ambientais. Simultaneamente, deve haver investimentos públicos e privados maciços na produção de combustíveis renováveis, no hidrogênio, em construções verdes e em redes de distribuição de energia inteligentes. É preciso ter em mente que essa transição levará décadas. Pode durar todo o século XXI. Um bom exemplo vem dos Estados Unidos. O novo presidente, Barack Obama, pretende ajudar o setor automobilístico, responsável pela geração de 3 milhões de empregos no país, a curto e longo prazo. Haverá um pacote emergencial, no qual serão destinadas dezenas de bilhões de dólares para as empresas à beira da falência. O dinheiro não servirá apenas para a recuperação das fábricas de carros. Parte dele deverá ser aplicada em novas tecnologias. Além do pacote, o novo presidente anunciou investimentos em sistemas de fontes renováveis. Os trilhões de dólares que estão sendo injetados na economia por diversos países funcionam como os aparelhos que mantêm vivo um paciente em coma. É preciso transformar e revitalizar a economia global.
O que já foi feito de eficaz em direção à revolução energética?
A Alemanha e a Espanha já avançaram muito nessa questão. Parar é o maior erro que os dois países poderiam cometer agora. Quem salta e pára no meio do salto cai. O próximo passo é atingir a chamada meta 20-20-20, proposta pela União Européia. Isso significa aumentar em 20% a eficiência das energias tradicionais, diminuindo o desperdício, reduzir em 20% a emissão de gases do efeito estufa e transformar o sistema de energia de forma a ter 20% de toda a produção a partir de fontes renováveis. Se isso acontecer, em dez anos um terço da energia elétrica da Europa virá do vento, do sol e dos mares. Na Alemanha, o sistema de fornecimento de gás acumulava um desperdício de cerca de 60%. Para diminuir a perda, o governo colocou em algumas usinas sistemas para estocar a energia desperdiçada, na forma de hidrogênio, em baterias. Hoje, perde-se menos de um décimo da energia produzida nessas usinas.
Quais barreiras tecnológicas precisam ser superadas para adotar amplamente as energias renováveis no mundo?
As energias renováveis estão disponíveis em todo lugar no planeta. Do país mais pobre ao mais rico, todo mundo tem em torno de si a energia de que precisa. O sol brilha, o vento sopra e temos calor embaixo dos pés, porque nosso planeta é quente. Temos lixo aos montes para queimar. A maioria da população mundial vive em áreas costeiras e tem a energia das ondas à disposição. No entanto, com a tecnologia atual, as fontes renováveis não podem ultrapassar 20% do total da matriz energética. Acima desse porcentual, elas danificam a rede elétrica tradicional, porque a produção não tem regularidade. O sol e o vento variam conforme o dia. Como não há um sistema de armazenamento eficaz para os períodos de alta produção, a energia excedente entra na rede e provoca panes. Por enquanto, a única forma de estocar esse tipo de energia é armazenar o excesso em baterias. A maioria das baterias é feita de lítio, o que pode ser outro problema no futuro.
Por que o fato de a maioria das baterias ser feita de lítio pode vir a ser um problema?
As baterias com essa substância são também a principal aposta da indústria automobilística para mover os carros elétricos. Se não tomarmos cuidado, passaremos da dependência dos combustíveis fósseis para a dependência do lítio. As reservas de lítio, assim como as de petróleo, são limitadas e estão em poucos lugares do planeta. A maior parte delas está localizada nos Andes, principalmente no Chile. O presidente boliviano Evo Morales anunciou, em março, a exploração de reservas de lítio em seu país. É provável que a Bolívia vire uma grande produtora de lítio nas próximas décadas. O risco é dependermos de alguns poucos países para extrair o lítio, o que pode provocar novos imbróglios geopolíticos.
O que fazer para que não se repita o erro de depender de poucos países para obter energia?
A solução é modificar a forma de distribuição de energia. Na verdade, essa mudança é a grande revolução energética. A cultura do petróleo foi fundamentada em uma infra-estrutura centralizada, formada por grandes centros produtores. Para as renováveis darem certo, é preciso fazer o que chamo de a internet da energia. Nos últimos dez anos passamos por uma grande revolução nas comunicações, com o computador pessoal, a telefonia móvel, a internet, os serviços de satélite e as redes sociais. Tudo isso tem de ser aplicado ao setor energético, para que se obtenha uma rede inteligente e livre de monopólios. As novas energias devem funcionar de forma integrada, com comunicação imediata entre produtores e consumidores. Essa será a base da terceira revolução industrial.
Como a internet da energia funcionaria na prática?
Grandes empresas de informática, como a IBM, têm projetos de softwares para a criação de redes inteligentes de distribuição de energia. Esses softwares reproduzem no sistema energético a interatividade do mundo virtual. Há até um cálculo para o custo da implantação de redes desse tipo na Europa. Antes, porém, é preciso superar o obstáculo de integrar as antigas energias com as novas.
Quem está na frente na corrida pelo novo cenário energético mundial?
A Europa está na liderança. Não foi a China, a Índia nem os Estados Unidos que impuseram sobre o cenário mundial o vínculo entre a luta pela defesa do clima e a inovação tecnológica. O continente sempre foi um berço de grandes idéias. A revolução verde já está plantada ali.
Falamos em um post anterior da necessidade das empresas de aprimorar a comunicação com a sociedade. Vejam que interessante a entrevista do Presidente Mundial da GRI, publicada hoje no jornal Folha de São Paulo.
TEMA SUSTENTABILIDADE AINDA NÃO FOI INCORPORADO AOS NEGÓCIOS
Os relatórios de sustentabilidade são um meio de informação cada vez mais demandado pela sociedade para conhecer a realidade das empresas, inclusive no que diz respeito aos seus problemas. E, assim como em outros países, muitas empresas brasileiras que publicam balanços ainda não incorporam as práticas relatadas às suas estratégias de negócios. A opinião é do holandês Ernst Ligteringen, presidente mundial da GRI (Global Reporting Initiative), organização responsável pela elaboração das normas Mais utilizadas no mundo para a publicação dos balanços sociais e relatórios de sustentabilidade das empresas. De passagem pelo Brasil, o executivo concedeu entrevista.
Folha: As empresas brasileiras estão divulgando corretamente suas ações de sustentabilidade?
Ernst Ligteringen: Na América Latina, o Brasil é o líder em publicações, com mais de 60 relatórios anuais. Em termos de qualidade, no entanto, o país ainda reflete o que vemos em outras partes do mundo: uma grande disparidade. Há empresas lideres, que estão integrando seu gerenciamento de sustentabilidade à prática dos negócios e se distinguindo estrategicamente por isso. Há um grande número de empresas que estão progredindo gradualmente, que estão no caminho de descobrir como utilizar seus relatórios de uma maneira mais estratégica.
Folha: Como diferenciar esses grupos?
Ernst Ligteringen: Temos de olhar para as práticas de negócios, saber se o relatório está verdadeiramente integrado à estratégia da empresa. Podemos perceber, por exemplo em um banco, se eles apenas montaram uma equipe para fazer um relatório ou se realmente identificam a quem estão dando crédito, sob que condições, se eles realmente coletam dados sobre o impacto de sua política de empréstimos etc. Um banco que age assim é muito diferente de um que não tem qualquer política e simplesmente junta palavras para publicar um relatório de sustentabilidade.
Folha: Em certos países é obrigatório publicar relatórios de sustentabilidade. É melhor inpor ou o desenvolvimento deve ser espontâneo?
Ernst Ligteringen: Até agora o crescimento tem ocorrido majoritariamente numa base voluntária. A KPMG identificou que, em 22 países, aproximadamente 3.000 empresas relatam suas práticas. Mas existem pelo menos 72 mil multinacionais. Mas se olharmos por volume, das 250 maiores empresas do mundo, aproximadamente 80% produzem relatórios.
Folha: Como o cidadão tem acesso a toda essa informação?
Ernst Ligteringen: A maioria das empresas publica seus relatórios nos sites. Mas o futuro mesmo são os sistemas de busca na internet, porque a maioria das pessoas não está morrendo de vontade de ler relatórios de sustentabilidade.
Folha: Como o leitor reage ao ler os relatórios?
Ernst Ligteringen: Nossas pesquisas indicam que 82% das pessoas formam uma imagem mais positiva da empresa quando encontram esse tipo de informação. E isso ajuda a empresa a ganhar a confiança das pessoas.